Economia

Crédito mais curto e caro derruba a demanda econômica em janeiro

Postado em: 26-02-2021 às 08h15
Encolhimento do crédito combinado com a contração nas emissões de moeda em janeiro, deverá desestimular a demanda total na economia | Foto: Reprodução

Lauro Veiga 

O sistema financeiro executou um movimento em duplo sentido ao longo do primeiro mês do ano, enxugando a oferta de crédito numa ponta e reforçando, na outra, suas “margens de rentabilidade” sobre empréstimos e financiamentos concedidos a empresas e às famílias. O efeito desse encolhimento do crédito, ao ser combinado com a contração nas emissões de moeda em janeiro, deverá desestimular a demanda total na economia, que já vem sofrendo negativamente os efeitos do fim do auxílio emergencial. Para comparação, em janeiro deste ano, o Tesouro liberou um valor residual de R$ 279,138 milhões, uma mixaria perto dos R$ 45,875 bilhões pagos em julho do ano passado. Mesmo comparado a dezembro, quando o valor do auxílio já havia sido reduzido para R$ 17,329 bilhões, a queda em janeiro atingiu 98,4%.

Mas o crédito não ficou apenas mais curto para os tomadores. Seu custo subiu novamente, ainda que não a taxa básica tenha sido mantida em apenas 2,0% ao ano. Considerando todas as operações do sistema financeiro nacional, quer dizer, incluindo o crédito “livremente” contratado aos bancos e o chamado “crédito direcionado” (que inclui os financiamentos para habitação e empréstimos para investimentos providos pelo BNDES), os juros subiram de 18,4% em dezembro para 20,0% em janeiro, voltando aproximadamente aos níveis de maio do ano passado (20,7%). Os juros cobrados das pessoas jurídicas avançaram de 11,2% para 13,4% de dezembro para janeiro, saindo de 23,2% para 24,3% no caso das pessoas físicas.

Ao mesmo tempo, os “novos empréstimos” tomados por empresas e famílias desabaram 35,5% e 20,4% na passagem de dezembro para janeiro. Pela ordem, encolheram de R$ 191,5 bilhões para R$ 123,5 bilhões e de R$ 208,2 bilhões para R$ 165,6 bilhões. No geral, considerando todos os setores da economia, as concessões de novos empréstimos baixaram de R$ 399,7 bilhões para R$ 289,1 bilhões entre os mesmos dois meses, num tombo de 27,7%.

Menos crédito, mais ganho

Com a elevação dos juros e a redução no volume de novos empréstimos, os bancos buscaram ganhar mais sobre menos. O spread médio (ou seja, a diferença entre o custo pago pelo setor financeiro para tomar recursos no mercado e os juros que cobram ao repassar esse dinheiro aos tomadores de empréstimos) elevou-se de 14,4% em dezembro para 15,7% no primeiro mês deste ano, muito próximo aos níveis observados em agosto do ano passado (15,8%). Detalhe relevante: a inadimplência média, que havia rondado a faixa de 3,0% em janeiro de 2019, manteve-se em 2,1% em igual mês deste ano, mesma taxa verificada em dezembro de 2019. Teoricamente, o spread poderia ser mais baixo diante de taxas de inadimplência bem comportadas e muito inferiores aos níveis alcançados em abril, por exemplo, quando chegaram a 3,3%.Como mostram os dados oficiais do Banco Central (BC), não foi exatamente isso o que ocorreu na saída de dezembro para janeiro.

Balanço

As estatísticas do “mercado livre”, onde, em tese, imperaria bancos e tomadores de empréstimos negociariam com ampla liberdade as condições de prazo e custos do crédito, indicam um agravante no comportamento do setor financeiro. Claro, naquele segmento do mercado de crédito, a tal “livre negociação” vale para grandes grupos e conglomerados econômicos, com poder de fogo para de fato negociar com os bancos – condição que, evidentemente, não se aplica às famílias e às micro, pequenas e médias empresas.

Nesta área, as concessões de novos empréstimos e financiamentos caíram 24,5% na comparação entre janeiro deste ano e o mês final de 2020, encolhendo de R$ 349,99 bilhões para R$ 264,11 bilhões. Os juros, no entanto, subiram de 25,5% para 28,4%, mesmo que a taxa média de inadimplência tenha sido mantida em torno de 3,0% pelo terceiro mês consecutivo (abaixo dos 3,8% registrados em janeiro de 2020 e mais distante ainda dos 4,1% anotados em maio).

O spread, como consequência, avançou de 20,9% em dezembro passado para 23,4% no mês seguinte. Mas o custo de captação (ou seja, os juros que os bancos pagam àqueles que deixam seu dinheiro aplicado ali) continuava baixo, em torno de 5,2% ao ano, diante de 5,1% em dezembro e de 6,3% em janeiro.

A redução das concessões de novos empréstimos, avalia o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), pode estar relacionada “ao encerramento dos programas emergenciais de crédito adotados no ano passado para amortecer a crise econômica da Covid-19”. Entre março de 2020 e janeiro deste ano, as concessões baixaram 28,6%, com tombo de 45,5% nos novos créditos contratados pelas empresas.

O comprometimento da renda das famílias com o pagamento de juros e amortizações de empréstimos voltou a subir em novembro de 2020 (dado mais recente do BC). Depois de ter recuado de 30,5% para 28,7% entre abril e julho, avançou para 30,9% sobre a massa salarial ampliada disponível, acumulada pelas famílias na média trimestral. Parêntese: a massa ampliada soma salários e transferências de renda do governo (aposentadorias, pensões, Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada), descontados o Imposto de Renda recolhido na fonte e contribuições pagas à Previdência.

A redução dos juros médios entre novembro de 2019 e o mesmo mês do ano passado, de 29,7% para 23,7%, fez com que os gastos com juros e amortizações ficassem em torno de 3,2% menores. Seria um alívio de a massa de renda disponível não tivesse encolhido 8,7% naquela mesma comparação. Segundo as estatísticas do BC, a massa salarial trimestral encolheu de R$ 294,11 bilhões para R$ 268,62 bilhões, em valores nominais (o que significa um tombo ainda maior se for descontada a inflação acumulada no mesmo período).

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